Horizonte de Tempo: Pensando no Longo Prazo

Certamente você já ouviu a frase: Bolsa é para o longo prazo. Entretanto, dando uma rápida olhada em alguns fóruns o que mais vemos são promessas de rentabilidades enormes com risco baixo. Percebem o paradoxo nessa frase?

Infelizmente, no mundo real, ativos com altos retornos esperados também carregam uma alta volatilidade. Afinal, ninguém quer investir em um ativo com alta volatilidade se não for recompensado de alguma forma.

O curto prazo costuma pregar algumas peças em nosso pensamento devido ao grande ruído que ele provoca. A sensação de perseguir o melhor investimento do mês, do ano faz com que acabemos investindo em ativos com alta volatilidade, muitas vezes acima da nossa própria tolerância ao risco.

É só olhar para a crise de 2008 e ver quantas pessoas abandonaram sua estratégia de investir 100% em bolsa,  uyilizando a estratégia de buy and hold (comprar e segurar). Os sobreviventes, diferentemente dos investidores que abandonaram sua estratégia, mantiveram-se firmes, pois seu foco está no longo prazo, sabendo que serão recompensados por isso.

Vejam que não estou condenando ninguém por investir 100% em bolsa nem alegando que é o melhor caminho a se tomar. Cada um deve investir de modo a satisfazer suas necessidades.

O foco deste artigo é o comportamento da volatilidade no longo prazo. A Bolsa, como já sabemos, apresenta um enorme risco no curto prazo, podendo apresentar retornos de 150%, assim como perdas de -50% em um único ano.

Vejamos o gráfico abaixo com diversos ativos no período de 1994-2009. Consideramos que o investidor olha a sua carteira todo mês, mas olhando a rentabilidade sempre em um período de 1 ano para trás (último ano). [Clique na imagem para ampliar]

Rentabilidades Anualizadas 1ano (12M)

Rentabilidades Anualizadas 1ano (12M)

Vejam quanto ruído está presente em um período de 12 meses. Não só a bolsa como o dólar e o ouro apresentaram variações bruscas neste curto período de 1 ano. Investidores não acostumados a este tipo de volatilidade invariavelmente acabam abandonando sua estratégia em busca de maior segurança.

Um investidor com 100% investidos em Bolsa teria nada menos do que 57 períodos de rentabilidade negativa em um período total de 171 meses. Isso significa que em 33,33% do tempo o investidor irá sofrer fortes emoções devido à rentabilidade negativa de sua carteira. Ademais, o pior retorno dos 57 retornos negativos foi de -51,04%, abrangendo o período de outubro de 1997 até setembro de 1998.

Agora, como essa volatilidade se comporta em períodos maiores? Vejamos um gráfico com retornos anualizados de 60 meses ou 5 anos. Consideramos que o investidor olha a sua carteira todo mês, mas olhando a rentabilidade sempre em um período de 5 anos para trás (últimos 5 anos). [Clique na imagem para ampliar]

Rentabilidades Anualizadas 5anos (60M)

Rentabilidades Anualizadas 5anos (60M)

A escala dos retornos foi mantida para realçar o efeito do longo prazo na volatilidade. Observem como o ruído é bem menor e como é mais nítido o comportamento dos investimentos em períodos mais longos.

Interessante notar que em todos os 133 meses (junho 1998 até agosto 2009) o mesmo investidor com 100% em Bolsa só veria a sua carteira com rentabilidade negativa em 2 períodos. Ou seja, em apenas 1,5% do tempo ele teria aquela aflição de ter retornos negativos. Ainda assim, os retornos nesses dois períodos foram de -2,05% em Out 1997 até Set 2001 e -1,82% em Ago 1998 até Jul 2002.

Agora iremos considerar que o investidor olha a sua carteira todo mês, mas olhando a rentabilidade sempre em um período de 10 anos para trás (últimos 10 anos). [Clique na imagem para ampliar]

Rentabilidades Anualizadas 10anos (120M)

Rentabilidades Anualizadas 10anos (120M)

Alongando a escala temporal para 10 anos, o investidor não teve sequer 1 retorno negativo na bolsa, sendo que seu menor retorno foi de 7,87% no período de março de 2000 até fevereiro de 2009.

Conclusão: É muito importante buscarmos entender o comportamento dos investimentos no longo prazo para que possamos desenvolver uma estratégia melhor e nos mantivermos firmes a elas.

O curto prazo traz uma volatilidade enorme para a Bolsa, porém alongando o prazo de nossos investimentos em ações, a volatilidade cai bastante, se enquadrando melhor na nossa tolerância ao risco.

Obs: Para aqueles interessados em desenvolver uma estratégia de longo prazo (visando a aposentadoria) com grande concentração em bolsa recomendo fortemente o blog Viver de Renda.

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Sobre o autor

Henrique é especialista em alocação de ativos, eleito um dos 5 melhores educadores financeiros do Brasil em 2012/2013. Continue Lendo aqui!

  • Muito bom, Henrique!

    Gostei principalmente do desenvolvimento do conceito de “ruído”, e de que ele diminui sua intensidade à medida em que se aumenta o horizonte de prazo a analisar. 😀

    É isso aí!
    Um grande abraço e que Deus lhes abençoe!

  • Henrique,

    Este gráfico de retorno em 10 anos, mostra o retorno anula em um período de 10 anos? Ou seja, entre 2000 e 2009 o retorno na bolsa foi de 7,87% ao ano; é isto?

    Acho que o principal fato de a maioria dos investidores abandonar o “longo-prazo” é que no LP os retornos da bolsa são bem mais baixos e a maioria tem a ilusão de enriquecer rapidamente ganhando 5% ao mes na bolsa, quando o retorno no LP é bem mais baixo; então acabam tentando adivinhar o futuro com estartegias de market timing / analise tecnica.

    • Henrique Carvalho

      Inv. e Fin.

      É exatamente isso. O retorno anual da bolsa entre março de 2000 e fevereiro 2009 foi de 7,87%. Entretanto, este foi o menor valor dos retornos anualizados em 10 anos, observados mês a mês. Apenas por curiosidade, a média desses retornos anualizados em 10 anos mês a mês foi de 16,34% e o maior retorno foi de 25,13% entre janeiro de 1999 e dezembro de 2007.

      Infelizmente, como bem citado no seu post sobre estratégias na bolsa, a cultura aqui no Brasil é ganhar muito pra ontem. Então a maioria parte para futurologismo, buscando acertar para onde a bolsa vai nos próximos dias, meses, anos. Como eu enfatizei no artigo, o ruído no curto prazo é muito grande, fazendo com que o investidor tenha muito mais emoções do que focando no longo prazo, o que leva à uma estratégia fraca que quase sempre perderá do índice.

      Grande Abraço!

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  • Deuteron

    Henrique,

    relendo seu blog, me veio uma curiosidade.

    Vc disse que o retorno anual da bolsa entre março de 2000 e fevereiro 2009 foi de 7,87%. Saberia dizer qual foi o retorno anual líquido desse período, isto é, descontando o IPCA-E?

    Com relação ao retorno médio de 16,34%. Duas perguntas:

    – Qual a abrangência temporal que estamos tratando?
    – Teria como traçar o retorno líquido médio da Bolsa, descontando o IPCA-E médio do período?

    Parabéns pelo blog e grande abraço,

    Deuteron

    PS: Recomendo a leitura do livro recém-lançado do Nouriel Roubini & Stephen Mihm “A Economia das Crises”. É bastante esclarecedor, principalmente, sobre a dinâmica de bolhas e das crises que as sucedem.

    • Henrique Carvalho

      Olá Deuteron!

      Suas perguntas me deram uma idéia de montar um novo artigo explicando melhor os retornos nominais e reais do Ibovespa.

      Nesse artigo pretendo responder melhor todas as suas perguntas, assim como atender suas sugestões. Me dê apenas um tempinho para preparar com melhor qualidade este material.

      E obrigado pela recomendação do livro.

      Grande Abraço!

  • Muito interessante este artigo. 😛
    .
    Valeu pela dica do Forum IA, vou dar uma olhada.
    .
    Abcs

    • Henrique Carvalho

      Valeu Willy!

      O Fórum tem muita gente boa. Entretanto, o pessoal vem postando pouco ultimamente. Vale a pena acompanhar o fórum!

      Abraços!

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