O Paradoxo da Inteligência Financeira: Como o Excesso de Confiança Pode Arruinar Nossos Investimentos e Como Evitarmos Cair na Armadilha da Inteligência Financeira

O conhecimento financeiro é uma faca de dois gumes:

Ele pode te tornar um investidor de muito sucesso e com excelentes resultados.

Ou…

Ele pode te arruinar e fazer você perder muito dinheiro.

A diferença entre esses dois cenários tão antagônicos é sutil e tem nome: “inteligência emocional”.

No mundo dos investimentos, é muito mais importante ter uma boa inteligência emocional do que ser um expert em finanças.

Por quê?

Porque as questões emocionais são as principais motivadoras de nossos erros financeiros.

E, nesse sentido, um dos maiores vilões emocionais que enfrentamos é o nosso excesso de confiança.

É justamente sobre esse tema que quero tratar nesse novo artigo do HC Investimentos.

Aqui, eu vou te apresentar o paradoxo da inteligência financeira.

Mais do que isso: vou mostrar como a inteligência financeira pode ser prejudicial para você.

E, é claro, te mostrar como evitar cair nas armadilhas que a inteligência financeira pode nos colocar.

Por isso, continue lendo esse artigo para saber mais sobre pontos como…

E, se você preferir, assista ao vídeo em que eu trato justamente desse mesmo assunto:

O CICLO DO INVESTIDOR E O EXCESSO DE CONFIANÇA

Eu tenho mais de 10 anos de experiência como investidor e quase 5 anos de experiência trabalhando no mercado financeiro.

Pode não ser uma vida inteira, mas é o suficiente para me fazer perceber certos padrões que se repetem com muitos investidores.

Uma das coisas que eu percebi é que a maioria dos investidores iniciantes passam por esse ciclo que descrevo abaixo:

  1. Primeiro, você descobre que é possível fazer o dinheiro trabalhar para você…
  2. Depois, descobre que os produtos que você escolheu para investir, provavelmente os do seu banco, não são boas opções de investimento.
  3. Então você procura mais informações e passa a investir através de uma corretora independente e a seguir as orientações da corretora ou de seu assessor.
  4. Em seguida, você percebe que existe um grande conflito de interesses entre as recomendações da corretora e do seu assessor e que eles não estão, necessariamente, interessados no seu sucesso como investidor, e sim na comissão que você gera para eles.
  5. Por fim, você se aprofunda nos estudos e descobre excelentes estratégias de investimentos, como a estratégia de alocação de ativos.

Ao final dessa quinta fase, você percebe como você amadureceu como investidor.

Percebe que já sabe como cada ativo no mercado financeiro se comporta e já domina seus riscos e suas características.

E é aí que mora o perigo.

Depois de adquirir tanto conhecimento especializado, você pode desenvolver um excesso de confiança. 

No que consiste esse excesso de confiança?

Em você superestimar as suas habilidades como investidor.

E, ao superestimar as suas habilidades, você acaba correndo riscos desnecessários.

Riscos que podem arruinar a sua carteira de investimentos e te causar perdas irrecuperáveis…

Duvida do que eu estou falando ou acha que eu estou exagerando nesse ponto?

Então preste atenção na história que eu vou contar…

Ela se trata de uma das maiores maiores tragédias já ocorridas no mercado financeiro.

E não me refiro à crise de 1929, tampouco à de 2008.

Me refiro à ascensão e queda do hedge fund (ou fundo multimercado) norte-americano Long Term Capital Management (LTCM).

QUANDO OS GÊNIOS FALHAM

A história a seguir é tão impressionante que existe um livro inteiro escrito sobre ela, chamado “When Genius Failed” ou, em português, “Quando os Gênios Falham”.

O LTCM era um fundo gerido por dois famosos gestores norte-americanos, que ganharam fama no mercado financeiro por terem formulado o famoso modelo “Black & Scholes” de precificação de opções.

Esse fundo operava através de complexas operações matemáticas para ganhar dinheiro com estratégias de arbitragem.

Uma destas estratégias que o fundo utilizava é conhecida como carry-trade e o seu racional é tomar empréstimos em países com baixas taxas de juros para investir em países com altas taxas de juros.

Dando um exemplo bem prático:

Considerando a nossa taxa de juros atual, seria algo mais ou menos assim: o gestor faz empréstimos nos estados unidos, onde as taxas de juros são muito baixas e investe esse valor levantado num país como o Brasil, onde as taxas de juros são bastante elevadas.

Assim ele capta dinheiro pagando pouco num país com taxas baixas e investe num país com taxas altas…

Bom… Ao longo de seus primeiros 4 anos, o fundo gerou retornos anuais de 40% ao ano.

Sim.

Se você sabe aplicar a regra dos 72, então de cara já percebeu que isso significa dobrar o capital em menos de 2 anos.

Com esse desempenho espetacular e com a fama dos gestores, o fundo acabou arrecadando a impressionante quantia de 4,72 bilhões em ativos sob gestão e, muito mais impressionante que isso, 124,5 bilhões em ativos empresados.

Isso tudo para alavancar suas posições que, teoricamente, eram de “lucros garantidos”.

O fundo era tão imponente, mas tão imponente que possuía cerca de 5% de todo o mercado de renda-fixa mundial.

O problema do LTCM foi que a estratégia formulada pelos brilhantes gestores nunca havia sido “testada” numa grande crise.

Ela não contava com a possibilidade de um evento grande e inesperado no mercado…

Um desses eventos que costumam ser chamados de cisnes negros…

E então, o que aconteceu?

Apareceu um cisne negro!

O fundo acabou não resistindo à moratória dos títulos governamentais da Rússia, em setembro de 1998.

Com este calote do governo russo, uma grande quantidade de investidores vendeu seus títulos de países europeus e asiáticos para comprar títulos mais seguros (norte-americanos), num movimento conhecido como fly to quality.

A consequência disso tudo, no LTCM, foi que suas posições altamente alavancadas em títulos europeus e asiáticos sofreram perdas enormes.

A perda patrimonial foi de US$ 4,6 bilhões.

A queda do LTCM foi tão grande e prejudicial aos seus investidores e ao mercado como um todo, que havia um grande medo que ela causasse um colapso em todo o sistema financeiro norte-americano.

A “bagunça” foi tamanha que o Federal Reserve (banco central americano), teve que realizar uma injeção de liquidez, numa operação chamada de bailout no mercado financeiro.

Uma tragédia, não concorda?!

MAS AFINAL, DO QUE SE TRATA O “PARADOXO DA INTELIGÊNCIA FINANCEIRA”?

“Os jovens gênios acadêmicos sentiam que jamais errariam” ~ Roger Lowenstein

Sabe qual é a maior lição que podemos tirar com a história do LTCM?

Que o excesso de confiança é mais prejudicial do que a falta de conhecimento financeiro.

E é aí que chegamos ao paradoxo da inteligência financeira.

Pense comigo: o maior problema das pessoas que acabam obtendo grandes conhecimentos sobre finanças é que elas começam a sustentar a crença de que são mais inteligentes do que realmente são.

Que sabem mais do que realmente sabem….

Daí essas pessoas mais instruídas tendem a acreditar que estão imunes a erros financeiros.

A falha destas pessoas é não perceber que a inteligência teórica adquirida nem sempre se traduz em uma habilidade superior na prática.

Em resumo: a educação e o conhecimento financeiro aparentemente aumentam mais a nossa confiança sem aumentar, proporcionalmente, nossas habilidades.

E isso não acontece apenas com investidores comuns.

Diversos “experts” e profissionais do mercado caem na mesma armadilha e, assim, acabam tomando más decisões financeiras e prejudicando seus clientes.

Onde eu quero chegar com tudo isso?

Eu quero dizer, em alto e bom tom, que você pode competir “de igual para igual” com os experts do mercado financeiro.

Entretanto, se você não estiver ciente desse paradoxo e superestimar seu conhecimento adquirido, tenderá a também tomar más decisões financeiras.

No fim das contas, você precisa desenvolver, paralelamente ao conhecimento especializado, uma boa inteligência emocional.

Você precisa conhecer os maiores viéses comportamentais dos investidores e buscar imunidade a eles.

E uma das nossas maiores armas contra os erros emocionais está em utilizarmos uma estratégia de investimentos que automatize o nosso processo decisório…

Uma estratégia que não envolva questões emocionais na sua aplicação e que dê uma maior importância à disciplina do que ao conhecimento teórico na sua aplicação.

É claro: estou falando da estratégia de alocação de ativos!

CONCLUSÃO

Investir não é uma ciência exata.

Ser mais inteligente ou ter mais conhecimento não significa dizer, necessariamente, que você terá sucesso como investidor.

Da mesma forma, você não precisa ser nenhum gênio da matemática ou ter algum talento sobrenatural para ganhar bastante dinheiro com os seus investimentos.

Pessoas comuns podem ter resultados extraordinários….

E pessoas com conhecimentos extraordinários podem ter resultados comuns…

Espero ter te mostrado, nesse artigo, como conhecermos as nossas falhas pode ser essencial para nos tornarmos bons investidores.

Espero, também, ter te alertado para o paradoxo da inteligência financeira.

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Um grande abraço,

Ramiro Gomes Ferreira

Sobre o autor

Henrique é especialista em alocação de ativos, eleito um dos 5 melhores educadores financeiros do Brasil em 2012/2013. Continue Lendo aqui!

  • Rivaldo

    Ótimo texto Ramiro! Estou começando pela Renda Fixa e estou investindo em fundos de investimento. Onde tenho liquidez e uma ótima rentabilidade. Mas ficou uma dúvida: o quanto o efeito “come-cotas” é prejudicial em relação a outros tipos de investindo na renda fixa? Abraço e parabéns pelos artigos

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